Para o meu bem...


Palavra de honra... cada vez que escuto essa frase sobe-me um arrepio pela espinha e o estômago encolhe-se em reviravoltas. Duvido que alguém que já tenha ouvido essa frase não tenha passado por um amargo de boca... bem grande. Vem do tempo que nos achavam fraquitos e magrinhos e tentavam a força fazer-nos engolir aquela colher cheia de um asqueroso óleo de fígado de bacalhau. Certo e sabido que essa coisa acabava vomitado nos chinelos de uma madrinha ou mãe solícitas preocupadas com o nosso crescimento e vigor. Ou quando nos achavam murchitos (cansaço das brincadeiras.. mas pronto) e tacavam uma colherada de licor de ameixa, porque essa molesa certamente eram lombrigas e era pro nosso bem... arghhhhh!!!

O castigo dos tempos de infância e adolescência surgiam sempre para moralizar mais os pais do que nos moralizar... era um tipo de amostra de poder paternal e que, no que nos dizia respeito, pouco nos afectava, já que no dia ou segundo seguinte outra asneira se repetia ou uma ainda mais elaborada :)
Mas nos castigavam para o nosso bem. Embora coloque sérias dúvidas no que as pessoas julgam o que será o bem estar alheio, o que parece que conta é a intenção. E de boas intenções está o inferno cheio segundo dizem...

É verdade, o efeito do "para o teu bem" é mais catalisador para quem coloca em prática essa benesse do que para quem a recebe. E isso não me sai da cabeça desde os meus 3 anos de idade. Mal de mim que tenho grandes e bem nítidas lembranças desde os meus quase dois anos de idade. Meus avós, pessoas que considerava inteligentes, já que faziam questão de nunca passar pelas agruras do Inverno... entre Brasil e Europa, dividiam o tempo quente. Portanto, duas pessoas minimamente inteligentes, que sabiam usufruir da sua  velhice, dar bom uso ao dinheiro acumulado... e vai daí que me saíram com esta. Me disseram, lá pelos meus 3 anos, que no Carnaval eu iria ter uma fantasia. Toda contente... assídua espectadora da série televisiva do Batman (santa confusão Batman!) pensei que iria ter a tão almejada roupa da Mulher Gato. Orelhinhas de gato, a máscara... tudo isso me fascinava... e vai daí que para meu bem, com uns tórridos 40 e tal graus brasileiros... me vestiram de.... minhota.  Mas não era fatiota assim pro lado da imitação, não. A minha avó fez questão de comprar TUDO original, o que se traduz em tudo feito em lã...

Não sei quantas saias, a combinação, as meias rendadas até aos joelhos, o rais'parta do lenço (de lã) enrodilhado na tola, por cima a saia, colete de lã...mais as inomináveis tamaquinhas de madeira polida e envernizadas de preto. Ficaram satisfeitos?? Não.. claro que não...para gáudio deles me penduraram mais ouro do que numa vitrina de ourivesaria. Mesmo me debatendo valentemente, implorando pelas orelhinhas e máscara da Mulher Gato.. me ataviaram de minhota "porque ficas melhor assim". Suei em bica... fui seguida por uma chusma de gente que achavam curiosa tal vestimenta, fui fotografada sem o meu consentimento por estranhos... porque achavam que isso é que era bom pra mim. Depois põem-se a questionar porque sou um bocado espirra-pregos... e isso meus amigos, devem-se aos traumas de infância e de todas as arbitrariedades tomadas para o meu bem. Justifica-se assim o meu comportamento oposto do corrente.

Mas não bastando os traumas precocemente instalados no meu sistema, agora, para o meu bem e de um bem maior, tenho que trabalhar quase de graça para pagar uma dívida que nunca fiz. Ou estava eu mesmo muuuito, mas muuuito bêbada para a ter feito e nem ter me dado conta, mas parece que cada habitante deste digníssimo país deve uma pipa de massa. Desenganem-se ao pensar que cada português deve X, e vá lá, não sou portuguesa e me escapava dessa. Não, basta viver aqui para ganhar essa prenda linda de dever o que os outros, digo, aquela corja sem vergonha e nojenta de ministros e ex-ministros fizeram desde recuados tempos. Nós temos que reduzir ao ínfimo tudo, mas aquelas criaturas que fizeram um péssimo serviço ao país, que agora estão retirados com uma bela pensão que acumula com outras que tais, não são sequer beliscados num cêntimo.

E para o meu bem...fica caladita. Porque se antes do 25 de Abril era ruim de viver, agora então é mil vezes pior. Se antes o país estava rotulado em Ditadura, desta feita estamos numa Democracia que nos asfixia a palavra e até a vontade...

...mas é tudo para o nosso bem.

Apareçam

Rakel

PS : fica a minha homenagem singela à Catwoman dos meus tempos de infância, a Julie Newmar, nesta foto a preto e branco  :)

Comentários

  1. Amiga,
    Não vou comentar a desgraça, que já nem merece comentários.
    Ou se calhar até merece, porque os comentários mais reputados (e os k mais nos impingem)vêm daqueles k não só não perderam as regalias, como ainda ganham cada vez que nos dão o privilégio de os ouvir dizer tão sábias palavras, balúrdios pagos pelos nossos impostos (os de antes e os k nos vão estorquir agora), por isso ... estou a pensar mudar de carreira. O k é k achas?

    Mas o k eu queria MESMO era ver uma das fotos da minhota. Já com uma saia é grave, quanto mais com o fato completo, com a vitrine e tudo.
    Please!!!!

    Manda-me para o mail, k acho que deve estar um mimo.

    Jinho e bfds

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  2. ...tenho foto, como outras ignobeis que nos tiram quando não temos voto na matéria.. tipo toda nua, com quase um ano em cima da colcha... essa é uma clássica. A dita minhota está em slide... vamos ver se encontro forma de passa-la para algo mais fácil e que faça parte do meu álbum "é por isso que me tornei anarca". Quanto a mudança de profissão, tu lá sabes...mas tens 100% do meu total e incondicional apoio.. como sempre

    Bjos e te cuida miúda!

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