Ayreon - Transitus ou Orfeu e Eurídice Modernos?



 Raramente venho discorrer as minhas divagações sobre as músicas que gosto e que acho que valem a pena postar aqui no blog. Acho que só me alonguei nos dois álbuns do Kamelot, Epica e Black Hallo, ambos contando uma história e que foi soberbamente exemplificado pelas músicas e vozes. 

No entanto, tem sido a minha actual mania ou vício ouvir e apreciar Ayreon; saído há pouco tempo e com uma certa curiosidade ouvi e vi o vídeo acima. Imediatamente, as minhas duas neurónias ficaram em polvorosa e a  mais erudita sinalizou uma provável coincidência ou inspiração: o Mito de Orfeu e Eurídice. Diga-se de passagem que mitologia é o meu ponto fraco (ou será forte?) e este coraçãozinho preto, de pedra e peludo é romântico, por isso não esquece facilmente as estórias de amores complicados, difíceis e impossíveis.

Pelo que compreendo do tema "Daniel's Descent into Transitus", parece-me que ele desce ao plano dos que já morreram para recuperar a sua amada Abby. E barganha com o anjo a possibilidade de trazer de novo à vida a sua Abby. 

Primeira coisa, felizmente há quem consiga fazer um enredo interessante, que não seja preciso bater na tecla dos valentes de espada em punho e cuecas de couro e a bradar pelos deuses da guerra. 
Não tenho nada contra as Rock- Óperas e acho que deveria ser um ponto a explorar; há público, há material. No entanto há pruridos de alguns puristas que torcem o nariz e acham que rock será somente os mesmos a fazer sempre o mesmo. Enfim...
 
No entanto, e apenas com uma música ao meu dispor para fazer algumas conjecturas, parece-me plausível que seja uma descida de Orfeu ao Hades modernizado pela mão preciosa, virtuosa e de um bom gosto já nosso conhecido do Ayreon. 
 
Para quem não sabe...
 
Orfeu era filho de Apolo e a ninfa Caliope. De certeza deve ter herdado do pai a capacidade musical (o Apolo era o Jimmy Page do Olimpo) e a sua infalível lábia. Da mãe e do pai, herdou a beleza e a simpatia tanto de deuses como de mortais. Como é óbvio apaixonou-se por uma donzela de beleza extraordinária e no dia do casamento de ambos, um centauro já meio cheio de vinho e de vontades libidinosas, assediou a Eurídice, a noiva, que correu em fuga pelos matagais até que ela tropeça (parece coisa de filme, né?)  e cai justo num ninho de víboras. A moça acaba sendo picada e morre ali mesmo, nos braços de um choroso e inconformado Orfeu.

Ele saca da sua lira e os sons que dela tirou e do seu canto choroso emocionou tanto os deuses como mortais. E foram os deuses que aconselharam que fosse até às profundezas pedir ao senhor Hades que libertasse Euridice dos Campos Elíseos e do esquecimento da vida terrena. A façanha não seria fácil, mas Orfeu, impelido pela tal da Esperança (essa malvada que abana-se na nossa frente e nunca a apanhamos) desce até chegar perto do barqueiro Caronte.

Caronte era um tipo de poucas conversas e não era de se convencer assim de mão beijada; era preciso que toda alma que fosse atravessar o rio Estinge trouxesse o seu óbulo (gorjeta, as tais duas moedas dentro da boca ou sobre os olhos do morto) e... estivesse mesmo morto.
No caso, Orfeu ia vivinho da silva e nos bolsos iam lenços de papel, uma caixinha de Tic-Tac e nas mãos a lira.

Caronte não estava nada disposto a deixar passar o rapaz, mas Orfeu cantou e encantou de tal maneira o barqueiro, que este puxou do lenço de pano aos quadrados do bolso e depois de assoar-se ruidosamente e muito comovido, deu passagem de graça até aos portões das terras de Hades.

Mas lá chegando, havia outro obstáculo: o cão de guarda do lugar e pet do Hades: Cerberus, com três cabeças e cada cabeça com uma bocarra cheia de dentes. O cão cheirou Orfeu e rosnou a sentir que estava vivo. E mais uma vez este saca da lira e canta e toca até o animal cair num sono profundo (e digam lá se os gregos não são uma fonte de inspiração? Lembram do Fluffy do Harry Potter que só acalmava com música? Ahhh pois é...)  e assim passou Orfeu por mais um obstáculo.

Chegado ao palácio de Hades e puxando do parentesco (afinal Apolo era sobrinho de Hades) conseguiu audiência com os soberanos e clamou pela sua amada. Hades e Persefone ficaram tão sensibilizados com a estória do rapaz que aceitaram devolver Eurídice ao mundos dos vivos e a Orfeu. Mas com uma condição. 
Durante a subida ao mundo mortal, Orfeu iria à frente de Eurídice e não olharia para trás até AMBOS estarem no mundo superior. Este, aceitou de imediato e conseguiu alcançá-la antes que chegasse aos campos Elísios e ao esquecimento da vida terrena. E aos poucos começam a subir para voltarem ao mundo mortal, e quando Orfeu chega à saída do mundo dos mortos, não aguentando a expectativa de se ela está perto ou não, olha para trás e... ela, que ainda não tinha alcançado a saída é puxada novamente para dentro das profundezas do mundo dos mortos. E desta vez, não há uma segunda chance.

Moral da estória? Sem confiança não há possibilidade de uma relação resistir e ultrapassar obstáculos e progredir.

No entanto, como só tenho este vídeo como referência e ainda não ouvi tudo o que o trabalho é, apenas posso divagar no que será o conteúdo da estória.
E a imaginação é o motor da existência humana. É dela que depois aparecem coisas grandiosas...


Rakel.

 

 

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