As Calendas Do Inverno

Há perto de 12 anos que temos este tipo de "jogo"; umas vezes é um tema, noutras é apenas uma palavra. Eu escrevo o que me vem à tola e ele a mesma coisa. Não é algo rotineiro, acontece quando estamos virados para isso e depois comparamos os textos. Ele não é apologista de blogs, nem tem apetência para redes sociais. Digamos que apesar de não ser um cota como eu,  é da "velha guarda"; até na escolha de palavras. Desta vez não houve desafio acertado de antemão, por isso o tema que ele permitiu publicar aqui é parecido com um meu já publicado. Ao G.C.M.I, agradeço estes anos de esgrima de letras e de conteúdos. A Imagem é do mestre Luis Royo.

As Calendas Do Inverno

O vento murmurava sílabas de sono naquele soturno silêncio nocturno. O plenilúnio, visível a pouco menos de um palmo acima da linha do horizonte, finalmente chegara.
O suor escorria-lhe pelo rosto, como lágrimas de pranto, apesar da frieza que entristecia as ruas de terra batida e casas húmidas e decadentes. Ofegava, mas tentava afogar a sua respiração na gola da sua casaca, moída e fina pelas constantes mordidas suas quando distraído. Não queria ser visto na rua por um guarda, pois a sua figura de capa negra e longa, com o capuz a tapar a cabeça e as ágeis botas poderiam confundi-lo por um mero malfeitor. Julgou que, quando inquirido por um soldado sobre as suas intenções, a já alta hora, esticar a sua viola não iria dar a ver que era um bardo, mas sim o ladrão de um. 
Evadia-se o melhor que podia dos rasgos de luz cuspidas pelas labaredas das tochas, estas dispostas ao acaso por ruas mal planeadas. As casas sustentavam-se umas nas outras por necessidade, com pesos e massas diversos que às garras da erosão desprendiam-se do solo, ou nele decompunham-se; este último, onde “terra batida” é mais um elogio do que uma honesta descrição daquilo que sugeria ser uma mistura de dejectos e restos de comida e de tudo aquilo que o vento conseguia roubar aos parapeitos das janelas abertas, para depois tudo isso ser compactado na terra com pés descuidados, cascos e rodas.
Se o cansaço lhe não tivesse roubado o ânimo e a inspiração, teria umas quantas estrofes de maldizer quanto aos cheiros que lambiam cada passo, cada esquina.
Conhecia aquelas ruas incertas, mesmo na maior negrura das trevas e, absorto naquela escuridão, os pensamentos intrusivos emergiam à superfície das doces e tristes águas do seu pensamento, nunca olvidando-se das amarguras da sua vida e do labor alicerçado em sacrifícios. Pensava constantemente em desistir: atravessar cidades, vilas e aldeias tornara-se numa penúria, onde a incerteza e a fome eram as únicas garantias. Era mais fácil – pensava ele – dobrar as pernas perante até ao mais baixo dos nobres, para pelo menos ser ofertado com comida todos os dias. 
Mas não podia. 
E lembrara-se porquê.

Nascido no campo e para o campo, não conhecera muito para além da família e do gado e que o mundo era do tamanho daquilo que conhecia: a vila, o rio, as árvores e a montanha. Mas certa vez, um sujeito de estranhas feições passou pela aldeia. Aclamava ter o dom da palavra e da música, e em troca de moedas, pão e feno, prometia cantar uma canção. Os habitantes reuniram-se em torno deste estranho e ouviram-no cantar sobre terras que vicejavam além do chilrear do rio, da negrura florestal e da placidez das montanhas. As suas palavras formavam cores e formas,  lutas e carícias nos seus ouvintes quando as suas personagens ganhavam um propósito, movimento e nomes, dádiva essa que só poderia ser dada pela sua voz. 
Todo esse mundo, todas essas pessoas: eram-lhe fascinantes, quando mancebo. Havia um mundo enorme lá fora, que esperava por ele, que o queria ofertar todas as maravilhas e misérias, ao contrário do ermo em que vivia.
Mordido pela curiosidade, o jovem acercou-se do bardo, quando findou a sua voz. Perguntou-lhe o que precisava de fazer para ser tornar num bardo como ele.

- Larga o mundo que conheces – Respondia, sem parecer fazer sentido. - E aceita este maior que espera por todos nós.
Esticou os braços para o lado e o rapaz compreendeu que os seus dedos apontavam para além do horizonte. 

- E como é que eu faço isso?
A pergunta do jovem fez o bardo estranhar. Ou melhor, olhava para o mancebo como se de um espelho se tratasse. No seu olhar semi-cerrado e cansado, via-se surpresa e desconfiança. Via-se que para lá das pupilas, uma quimera combatia contra certezas e as suas antíteses, experiência e imaginação. Depois de domada a quimera, o bardo inclinou-se para a frente, murmurando:

- Beija quem te criou e despede-te do teu gado; enche uma saca com comida e roupa e caminha para onde o Sol se extingue. Quando um dia vires uma cidade que banha as suas imensas pernas nas águas de um rio cem vezes mais amplo do que este aqui, procura pela “Bella Donna” Se ela não te quiser, volta para trás e esquece este grande mundo.
“Se ela não te quiser”... “Esquece”... Repetiu estas palavras vezes sem conta até adormecer, quando o céu encheu-se de constelações e ululares remotos. 
Fizera tudo o que o bardo dissera e bardo agora era. Mas não sem um custo.
Finda a sua introspecção, encontrou uma pequena casa baixa, embora comprida, que ficava numa rua de tal maneira desconhecida que nem os guardas por lá passavam e os residentes tinham de acender uma pobre tocha todas as noites, quando tinham a sorte de terem um farrapo qualquer para arder.
Duas leves batidas na porta e vários passos pesados mais tarde, escutou uma voz de trovão vinda do interior, após um pigarrear e um suspiro de má vontade:

- Qual é o Som da Ignorância?
- O Silêncio, meu amigo. - Replicou o bardo.
Após ter-lhe sido dada entrada a uma pequena e modesta habitação de madeira, onde elevava-se uma aura de incenso, descera umas escadas que se atiravam a uma bela porta de madeira, bem trabalhada e ornada, com letras e símbolos que eram-lhe desconhecidos.
Mal começara a dilatar a fresta da porta, uma voz doce e quente convidou-o a entrar:

. Ah, julgava que nunca mais retornarias para mim! - Exclamou num sorriso, cujo estrangeiro dialecto moldava as vogais, inspiradas por visões de areias quentes; as consoantes eram as raízes dos túmulos de mármore que enterravam o heroísmo de tempos imemoriais e longínquos.
Por trás de uma mesa alta de madeira, uma senhora de porte nobre enrolava pergaminhos com fitas vermelhas, esboçando um sorriso de uma distraída alegria. O rio negro dos seus longos cabelos corriam pelo seu rosto fino e delicado, os olhos tingidos de caramelo – como que derretidos no lânguido ardor de brasas quase extintas, com pupilas dilatadas que penetravam atentamente no corpo do bardo; um pequeno nariz emergia acima dos lábios finos, sempre dispostos a sorrir ao menor motivo. Os seus movimentos eram sensuais e toda a sua roupa fina e negra sugeria um sigilo sem defesas: segredos que queriam ser descobertos à luz das chamas.

- Gostava de dizer que esta tua visita era de “rotina” - Continuou. - Mas resigno-me à tua esporadicidade, o que acaba por alegrar-me mais do que se fosses mais presente. - Depois, com um olhar de soslaio um tanto misterioso, acrescentou. - O casal que se deleita com mais frequência não terá o mesmo prazer do que aquele que espera pelas estações... - Inspirou, apagando o seu sorriso depois de se livrar dos pergaminhos e apoiou os braços em cima da mesa. - Como obriga-me o ofício, sou levada a inquirir: quais são os ventos que te trazem aqui?
O bardo estremeceu e tornou-se suspeito das intenções daquelas palavras. Tinha entendido o que Bella Donna quis dizer, mas não quis dar a satisfação de o transparecer no seu rosto. Num movimento subtil, afastou tais palavras.

- Venho finalmente dar por finda a minha dívida. - Replicou o bardo quase num murmúrio sem eco.

- “Finalmente”... - Sem poder evitar um sorriso, desviou o olhar para um canto vazio do quarto, ao reviver uma breve lembrança do passado. Qualquer movimento, qualquer gesto dela trazia mais calor para o homem do que a lareira à sua direita. - Mas tu ainda não começaste a saldar a tua dívida.
Um sopro gelado galopou pela sua coluna acima, servindo-se de garras para cravar em cada um dos espaços das vértebras. Ela reparou no espanto que ele tentou esconder, mas levantar uma sobrancelha não melhorava o seu disfarce.

- Não devo de ter entendido bem... - Dizia o bardo num fio de voz.

- Oh, meu querido, eu acho que deves de ter entendido muito bem. - Replicou. - Sei que te lembras muito bem do nosso acordo. - Depois, inclinando-se vagarosamente para a frente, deixou sair uma voz mais quente do que antes. - E duvido que te tenhas esquecido do modo como selámos o contracto... Diante dos astros e sob um salgueiro – são testemunhas das nossas palavras...
Ele vacilou. Lembrou-se de tudo e estranhou como não tinha tido essas memórias antes. Era como se tivessem sido propositadamente bloqueadas e a chave residia na língua rosada daquela mulher. As carícias no pescoço, os gemidos que, sem sucesso, tentavam formar palavras, mas apenas longos ditongos ditavam o que os dois corpos sentiam – e gritavam.

-Pareces preocupado. - Disse Bella Donna. - Pareces desiludido.

- Não era um acordo, era uma maldição! - Exclamou, sentindo-se cada vez mais entregue a ela. Quis dizê-lo com força e fúria, mas algo nela puxava-o e a relutância tinha abandonado aquele corpo, que durante tanto tempo fora uma fortaleza.
Donna sorriu.

- Era pois. E Todos o sabem, Todos ouviram-nos. - Ela levantou-se, deixando zunir a sua mão pela mesa, que distraidamente ia derrubando alguns itens que para ela não tinham importância. - Dei-te voz, a proficiência das notas e uma imaginação mais fértil do que aqueles que, em euforia dita “divina”, escrevem dogmas de martírio e obediência, quando são nada mais do que débeis escravos das suas naturezas embrutecidas, enaltecidas em cruzadas de sexo e violência. - Agora, diante do bardo, ela desenhava uma linha invisível na roupa dele, que em curvas e rectas incertas, desciam desde o pescoço até às suas virilhas. - E assim que morressem dezoito Verões - Agarrou suavemente nos genitais do bardo, por cima das calças. - Serias meu por dezoito Invernos.
Era cada vez mais difícil de resistir. Ela estava tão perto dele, lançando aqueles olhos felinos que penetravam pelos seus adentro, na procura de tudo aquilo que ele era e seria para ela. O seu odor de rosas e frutas primaveris, a curva que os seus seios faziam por debaixo daquele vestido de sombras e os gentis dedos que massajavam suavemente o seu membro... Estava no limiar da loucura. Numa respiração pesada, tentava dizer qualquer coisa:

- Eu... Eu quero... Eu não...
Levou uma mão à testa, que àquela altura estava leve e distante daquele mundo. Bella Donna fez um gesto delicado para se calar e não tardou a deixar cair as trevas que cobriam o seu corpo. Nenhuma linha, nenhuma cor no seu corpo tinha defeito. A beleza de qualquer deidade helénica mostrava-se inerte à fealdade ao lado dela. 
E o bardo não resistiu. 
Pegou-a pelos flancos e deitou-a no chão morno, desfez as suas calças e, erecto, procurou a fenda que tanto ansiava e em mordidas e beijos repenicados, entraram num ritmo de intensa paixão.
Era o primeiro dia de Inverno. 



- G.C.M.I



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