Hey Mr. Tambourine Man




Bob Dylan recebeu o "prestigiado" prémio Nobel e não se manifestou; direito dele como dos demais mortais que tem dois dedos de testa e se perguntam se devem ou não fazer choradinho e rapapés aos ilustres que o premiaram. Dirão que, talvez, seria de bom tom ser um tipo educadinho e ter agradecido, postado um comentário catita e enternecido, cheio de agradecimento aos seus fã e afins. E ele deve ter se perguntado: mas para quê?

Não foi o único a não dar grande importância ao facto e que seguiu a vidinha dele. Mas, tal como as gralhas que ficam encantadas com qualquer pedacito de vidro brilhante  a maior parte das pessoas estufam o peito e se acham mais e maiores  só por causa disso... e do prémio monetário que sempre dá jeito; desdenhar ou não dar eco ao prémio pareceu mal à dita academia de prestigiados que esperavam rasgados agradecimentos.

Jean Paul Sartre, escritor e filósofo francês, um dos mais proeminentes do género existencialista, chegou mais longe e inclusive recusou o Nobel prémio. Justificou mais tarde, dizendo entre outras coisas como que o dito prémio só se enternecia (lá pelos idos dos anos 60) pelos europeus; disse também que era um título burguês e que não se equivalia aos valores dele.

Le Dúc Tho, foi também um dos que recusou o prémio Nobel, desta vez o da paz, isto lá pelos anos 70. Ele e Kinsseger foram indigitados para esse prémio pelos esforços de paz no Vietname, altura que estava em plena degraça de guerra entre Norte e Sul. 

Marlon Brando, aquando dos Oscars, mandou no lugar dele uma activista e real americana, uma nativa norte americana, para discursar na entrega do boneco; discurso esse que já na altura reivindicava os direitos dos nativos. Cortaram o pio da moça, deram-lhe 15 segundos e Marlon deu amargos de boca aos festejos. Brando achou-se no direito de dizer o que lhe ia na alma e sobre aquilo que acreditava. Melhor que os discursos chorosos e com mais conteúdo e com jeito. 

O grande problema, o X da questão é quando estas sumidades que dão um selinho de garantia e qualidade vêem-se perante algo que não esperavam. Nunca colocam um cenário do imprevisto, nunca pensam que, se calhar, nem toda gente acha-os tão importantes que nem sequer pensam viver sem um prémio que os categorize. 

E se há coisa que aborrece a vida, é a previsibilidade. 

Tem o lado bom e o menos bom, é certo, mas de qualquer maneira saber de antemão que tudo leva à determinado caminho, que por este ou outro motivo as coisas vão ter um determinado fim, é no mínimo uma estopada.

Mas falando sério, na maior parte das vezes, as pessoas tem reacções exageradas quando julgam-se tão bons ou tão ilustres como a malta que decide os Nobel. Ego inchado? Talvez. Uma sobrevalorização de si mesmo? Certamente. Falta de humildade? Sem dúvida. Uma ideia errada que são donos da verdade? Ahhhhhh....isso nem se fala. 

E vê-se por aí disso nos casos mais simples e caricatos.  Até aqui no blog, que convenhamos, não será, apesar dos muitos que lêem os posts, que seja um lugar Top e de alguma importância maior do que a que lhe dou, uma mera escriba de casos. Isto é dar sentido à algo que só eu sei, aventurar-se a se rever no que escrevo é no mínimo arriscado e no máximo um grande erro. Mais de 90% das vezes escrevo o que me vai na bolha, de um só fôlego e sem corrigir ou mudar nada. Depois, lá aparece uma alma caridosa a dizer-me que um paragrafo ficou sem pontuação ou que uma palavra ficou aglutinada com outra. E que os deuses me livrem de ser uma plagiadora da Dona Assunção Esteves e a sua liberdade criativa, da sua capacidade de inventar palavras novas na língua portuguesa!!

Mas há quem se reveja e se sinta visado, mesmo que o tiro tenha saído ao lado, mesmo que nem sequer seja motivo para mim de incómodo. Mas lá está... o tal do Ego, grande polpudo e prestes a estourar a funcionar.

Não será de todo a minha época mais pacífica a nível pessoal, não da vida em si, mas das minhas dúvidas e pensamentos. Nunca fui pessoa de tomar de ânimo leve algo como concreto sem antes pensar e repensar várias vezes. E poucos sabem até que ponto sou exasperantemete chata e lenta a analisar. 
Mas uma coisa é certa: quando me sinto incomodada com alguém, seja pelo motivo que for, não mando indirectas. Quando acho que as coisas não estão bem, que vejo que não há reciprocidade em questões de respeito, confiança ou de afectos, eu digo directamente à pessoa em questão. Se não consigo falar cara a cara, telefono; se não consigo telefonar escrevo directamente à ela. Fiz isso recentemente com uma pessoa que conheço há décadas, não mandei recado, não mandei bocas nem indirectas. Era uma pessoa pela qual tinha grande estima e consideração e que, infelizmente, tem agora um comportamento extremo e sem espaço para outra opinião certa que não seja a dele, falei o que achei que devia dizer e ponto final. Sê feliz.

É muito diferente de uma pessoa que conhecemos há um par de anos, que mal sabemos o que realmente pensa e que se acha o supra-sumo da sabedoria. Nesses casos, perante qualquer acontecimento que saia do rame-rame do mundanismo tem as reacções mais previsíveis e aborrecidas. Cansam-me e não me dão vontade sequer de dizer o que penso. Não há despedida e um sê feliz. Saio pela porta que entrei da mesma maneira, sem dever nada. Dou uma de Bob Dylan...não comento sequer a vulgaridade de ser previsível.

Reacções previsíveis, tenho-as todos os dias, elas não me fazem pensar, não me fazem questionar e não me colocam com estados de alma alterados. É monótono, é chaaaaaato como o caraças... mais do mesmo.

Por isso, o que aqui escrevo tem mais importância para mim do que podem compreender; não é um veículo de mensagens sublimares. Sou eu atentar muitas vezes roer o osso, digerir bocados soltos que não tem nexo, mas que pra mim, tem todo sentido. Se me ponho aqui a debitar abébias por causa de uma pessoa que conheço há décadas é porque já houve previamente uma conversa séria e elucidativa e me despedi; se me ponho ainda a digerir e a lembrar de um poeta obscuro, é porque também soube dizer o que pensava e me despedi (embora ainda não seja capaz de arrumar numa caixa e meter no sótão) previamente. 

O resto, é apenas especulações e uma auto-consciência exagerada.


Apareçam


Rakel.


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