Auto - Retrato ou Selfies



Dia começando com chuva miúda, eu a comer a calçada em passo apressado, pois já estava em cima da hora quando sai de dentro da pastelaria o dono da loja dos livros usados cá da terra, e me chama. Conseguiu uma preciosidade, pois além de alfarrabista tem uma loja de antiguidades. Segui-o enquanto ele acabava de mastigar o bolo deixado a meio em cima do balcão e abriu a loja para que eu visse o auto-retrato dum pintor torrejano, Carlos Reis. Não foi um artista muito prolífero, mas com qualidade, lá está, quantidade não quer dizer quantidade. Perdi um bocado de tempo a conversar sobre a conservação do desenho a carvão, sobre o estado geral da obra ou como ele é pouco acarinhado, mas fiquei a pensar nisso.

Eu, sinceramente, não sou muito talentosa no risco de desenho, acho que perdi a mão nisso embora tenha sido até razoável no traço. No entanto, prefiro as letras ao tentar definir-me ou retratar-me, e quando digo tento é porque sou um bocado auto-crítica demais e acabo por colocar mais defeitos do que virtudes, ou se calhar acho que meus defeitos são virtudes. No geral a maior parte das pessoas enxergam-se com demasiada benevolência (uns dizem que é uma auto-estima alta) e metem os defeitos num photoshop caseiro e melhoram a imagem.

Então... qual a imagem ou qual a maneira que passamos o nosso auto- retrato?

Bom, pegando nos notáveis da arte, escolhi o auto-retrato de Van Gogh por uma simples razão: os olhos. São olhos de desalento, de quem já perdeu tudo e tem consciência de que a sanidade anda por um fio ténue, uma mente conturbada e cansada de ser assim. De certeza ele teve que olhar-se no espelho, e se o fez de maneira consciente, será que ele viu tudo o que era e... sei lá, deu conta do turbilhão em que estava envolvido? Ter essa consciência nada paternalista, que não melhora os traços, que não atenua o lado menos bonito da vida é de um despojamento brutal na auto-crítica.



Frida Kahlo, umas das pintoras que mais se dedicou ao auto-retrato, talvez fosse pelo caso de ter ficado longos períodos numa cama, por ter brigado tanto pelo que queria e pelo facto de ela mesma não ter sido um ícone estético de beleza. Na maior parte das obras desta pintora ficaram os auto-retratos onde ela evidenciava as duas grandes dores da sua vida: as sequelas do acidente e a incapacidade de ser mãe. Outra vez os olhos dizem tudo, a desilusão, a luta e todos os contornos difíceis de quem convive com a impossibilidade.



Quando a fotografia entra em cena finalmente há duas possibilidades: o auto-retrato conceptual  ou a praga do selfie.

Dentro da foto conceptual, geralmente com foto a preto e branco mostra esse jogo de luz/escuridão de que somos feitos. Não me venham cá com coisas que "não há escuridão dentro de mim, pois sou só luz, paz e amor" pois não é verdade. TODA gente tem que lidar com lado menos luminoso que nos calhou ou foi criado. Leva tempo a perceber a necessidade de trabalhar o equilíbrio de luz e sombras, leva tempo a perceber que não somos uma Julie Andrews a cantar no alto de uma montanha a rodopiar na erva  e sempre de sorriso nos lábios. Temos um lado ruim sim e de vez em quando salta cá pra fora.

Gosto muito das fotos em estilo auto-retrato conceptual, pois coloca a imaginação a trabalhar e a inventar outros meios de explicar-se.



...agora há esta praga do Selfie...

Não há lugar, hora ou situação que não se peguem de telemóvel nas unhas e desatem a fazer beiçolinha atarraxada e tirar um auto-retrato para posterior publicação nas redes sociais. Cansam.. cansam demais. O que faz cara de mau (porque atenção, ele é mau e ateu e tudo e tudo), a que anda pela vida a tentar o grande amor que se cansa dela com tanta melice e mania, é mostrar a marca do biquini, é mostrar que acabou de levantar da cama e tem o cabelo possuído por uma entidade alienígena, que está a comer cereais coloridos... e as inevitáveis bubas (bebedeira, cadelas, chibas) de fim de semana, de olhinhos velados pelos vapores etílicos e com ar beático. E fazem questão de postar até o beijo meio torto pra mostrar o quão in love andam, nem que seja pra depois, passadas duas semanas, depois de acabar esse amor eterno, já mandar indirecta amarga. Eu não sabia, só quando me coloquei a pesquisar sobre o assunto vi que há gente.. que tira selfies em funeral. Meu, eu até aceito um selfie ao lado do cantor ou da actriz de eleição, mas...funeral?


o.0  (possível legenda: "Olha eu no funeral da minha querida avó... quantos likes eu vou ter?)

Eu não preciso de uma licenciatura em psicologia ou em psiquiatria para deduzir que uma pessoa que constantemente tira e posta selfies tem um problema mental. Não, eu não digo que possa desenvolver, eu digo que essa pessoa já tem um grave problema de estrutura emocional. Porque precisar de tamanha aprovação dos demais, de precisar dizer, mostrar-se tantas vezes... é porque lá dentro as coisas andam mesmo mal, numa solidão emocional enormeeee.
Anda tudo de telemóvel em riste pronto para tirar a foto do minuto ou dizer cada passo que dá no quotidiano: a fome, que chove, que faz calor, que tem dor, que está de chinelos e fez bolha no pé (com foto), a nódoa de café na saia... e por aí vai.
Pergunta inocente: o que fica por descobrir numa pessoa assim? Sério, o que uma mulher ou um homem pode querer saber de uma pessoa que despojadamente escarrapacha a todo minuto o que faz na vida? Como a gente vai perguntar... "como foi o teu dia?" se de minuto a minuto precisam postar foto e receber aprovação no estilo Pavlov?

E isso.. é um auto-retrato ou uma publicidade barata do que pretende ser uma personalidade? Há assim tanta necessidade de aprovação?

Cá pra mim, quanto mais ligados ao mundo virtual, mais longe ficam da realidade, mas isso, são escolhas pessoais.

Apareçam

Rakel.


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