Gravidade Zero



Estar caidinha, fall in love e demais expressões sobejamente conhecidas, fazem parte do repertório de quem se explica na fase apaixonada. Pensando bem nisso tudo, há como que uma inevitabilidade de quem se apaixona, tipo... a queda do anjo, ou quanto mais resistes, maior a queda.
Camilo Castelo Branco colocou um Calisto Elói de Barbuda no lugar de um homem de província com fortes convicções conservadoras uma certa forretice tacanha... e que fica pelo beicinho por Ifigénia, uma prima distante, que torna-se na sua amante e manda às urtigas o bom nome e toda aquela coisada de conservadorismo, decoro e moral...e forretice.

Quando alguém se apaixona, muitas vezes é assim, não é um assunto estudado, acontece aos melhores e aos piores, aos irredutíveis e aos dispostos à isso.  Acontece no trompicão mesmo. Aí começam aquele conjunto de sintomas tão bem conhecidos, que andam entre um ataque de ansiedade, misturada com os calores menopausicos e mais uma certa melancolia pós parto. Há uma série de mudanças no nosso corpo de cada vez que alguém se apaixona. Uns restinhos do que foi o nosso lado primitivo, de cheiros, épocas e de necessidade de perpetuar uma raça e passou a ser pura diversão. Como já expliquei aqui antes, a nossa quimigal interna trabalha a todo gás quando o estado de alma altera-se.

Estar apaixonado é bom ou é mau então?

Aí o assunto muda de figura... já que há praí uma data de amores não correspondidos, de umas quantas ilusões deitadas por terra e uma certa confusão entre atracção física e estar apaixonado. Tudo detalhes que fazem a maior diferença entre pessoas com estados de alma alterados.

Será por isso, se calhar no meu T-Zero faz sentido assim, que não acho engraça nem acho muito certo que se diga que se caiu de amores, que tá caídinho ou pelo beicinho... ou como ouvi uma vez "doente de amor".

Serei uma romântica empedernida ou o estado de alma apaixonada parece-se mais com estar na Gravidade Zero? Embora eu nunca tenha estado no espaço sideral, nem nunca brinquei numa câmara que simula uma nave espacial, vejo a situação de estar apaixonado com o flutuar... levitar. O nosso lugar no mundo fica assim, leve e solto. Não naquela fobia doida de quem perde o pé no mar, nem que em qualquer momento dê uma cãibra e afundamos de seguida. Nop, os problemas deixam de ser problemas, e sim, fica-se levemente aparvalhado no meio disso tudo. Pensa-se na sorte de se ver outra vez cheio de planos, de alguém que preenche um lugar que só cabia para ele/ela e, a satisfação é tamanha, que o corpo se encharca em endorfinas e oxicitocinas... um tipo de overdose de chocolate.  :)

Então, se dá satisfação, bem estar e uma data de coisas boas, expliquem-me este gosto mórbido em dizer que caiu de amor? Uma queda geralmente acompanha um belo galo na testa, uns joelhos esfolados e uma dor que não se espera além de um rol de asneiras cabeludas (eu pelo menos não digo" valha-me Madre Teresa de Calcutá!!!").
O que poderá muitas vezes cair sim, será uma certa resistência ao facto de estar irremediavelmente boiando na Gravidade Zero. Isso de tirar o chão debaixo dos pés é só para corajosos, pois pode ser um pulo ou a situação de viver mesmo na falta de gravidade. Incomoda muito aos que gostam de ter um certo controle nas coisas que sentem ou fazem isso de estar a levitar... e geralmente, colocam por antecipação a data do fim de tudo. Aceito, na vida tudo tem um começo, meio e fim, mas o fim não precisa ser uma queda abrupta e dolorosa. Pode ser uma aterragem leve e consciente de que tudo foi o que tinha que ter sido, sem mágoas nem atropelos, contusões e montes de trombocide ou arnica.

Se eu mandasse (e aí vocês veriam como o mundo andariam melhor) tudo que é bom e nos faz bem, tem como OBRIGAÇÃO terminar na mesma maneira que foi: bem. Embora a velocidade que nos dias de hoje apaixona-se e desapaixona-se seja alarmante, e eu bem tento dizer que não é paixonite mas atracção fatal, ainda acredito que estar apaixonado e viver uma experiência que nos ponha a levitar com um sorriso parvo no rosto... é bom. Não uma queda, uma dor ou fatalidade, algo trágico e desesperançado...

Daí eu não entender a causa da violência entre casais, da tristeza de se ver menosprezado ou a espera que a a actual substituição de lugar se deve à uma fase transitória do outro. Por muito apaixonado que esteja por alguém, o mais certo e mais saudável é ter capacidade de se apaixonar por si mesmo e tratar-se tão bem quanto queira.

Levitem

Pareçam

Rakel.

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