Somos?


Hoje no DN vinha uma daquelas perguntas bem filosóficas que não ficam nada bem num sábado, Agosto e com a cachola a funcionar a meio gás, daquelas perguntas do tipo "como conseguimos chegar até aqui?"
Se for pra fazer conversa em beirada de balcão de boteco diremos que tudo caminha pra bem pior blá blá, no meu tempo é que era bom blá blá...

Mas pensando bem, arranjando uma almofadinha macia para aconchegar os cotovelos para podermos debruçar melhor sobre o assunto, realmente é quase um milagre a humanidade ainda existir e se perpetuar. Vamos lá ver isto: do reino animal, somos aqueles que nascemos com piores capacidades. Não voamos, não temos pêlos que nos protejam, nem carapaças, nem garras ou presas afiadas. Quando nascemos, se não é a nossa mãe que nos pegue e nos alimente..morremos de fome e frio. A maior parte dos animais assim que nascem, toca de levantar e ir procurar a mama, senão morre (daí não sei... acho que político tem algum instinto ainda bem primitivo que o faz agarra-se a toda mama que pode) e tem que se aguentar nas canetas pra poder fugir dos predadores.
Não temos asas, nem um olfacto apurado ou uma visão super-super...não, temos um cérebro maior...ora porra.. o macaco também tem e o golfinho idem aspas...e daí? 




Outro dia, a ver um programa na RTP2 (a única estação que ainda me vai cativando em frente da TV) um antropólogo falava que o homem actual, não é mais do que um símio no final das contas. Ora, o simpático macacóide chimpanzé, tal como o ser humano, vive em grupos. Tal como nós tem um chefe da macacada e também, tal qual os humanos, quando acham que um grupo rival anda muito perto da região onde vivem, fazem expedições punitivas, tal qual nós, os humanos evoluídos fazemos. desatam a pancada só porque alguém ralou muito perto da fronteira ou esticou um olho pra alguma macaca...

Portanto, se em suma, somos animais com um cérebro maior como única mais valia, seria de esperar que fizéssemos melhor do que os menos evoluídos né? Mas não, ter cérebro maior não é sinónimo de melhora ou de superioridade. Não aprendemos com os erros e temos a picardia de pensar que temos tempo de sobra para rectificar qualquer engano...
Ou então, feitos uns verdadeiros génios, pensamos que nos safamos de alguma rebordosa se formos mais inteligentes do que os demais. Sabemos que uma escolha nossa possa dar errado, mas lá está, arranjam-se esquemas ardilosos para escapar da palmatória.

Enquanto que os animais, aqueles que chamamos de irracionais, sempre levaram a sua vidinha nas calmas e sem estragar muito o ambiente, nós andamos a fazer cavalices umas atrás das outras. Destruição do ambiente, desmatamentos, desflorestação, sistemas ecológicos comprometidos, água esbanjada... e lá estamos nós a colocar em risco não só a nossa espécie, como as demais.
Guerra bacteriológica, psicológica, de mercado, tudo serve pra fazer-se superior ao nosso semelhante, e nós somos os inteligentes.

O facto de termos chegado tão longe na história, talvez se deva ao facto de termos aparecido também tarde demais. Antes de nós, outras espécies animais e vegetais existiram, deixaram de existir com as mudanças que um planeta em construcção exige, apuraram-se e evoluíram umas, deixaram de existir outras. A lei do mais forte sempre existiu, mas nunca da forma como hoje se faz. Existimos por causa de uma sorte desmedida, ou lá nas alturas, alguém vem dando segundas chances e gastando cartuchos. 

É uma sorte sim, nós que aos poucos negligenciamos o lugar onde vivemos, criamos guerras por dá cá uma palha, mudamos a genética das plantas ao nosso bel prazer, destruímos habitats por ganancia dos minerais mais valiosos... e somos evoluídos. Enquanto que para os primitivos indígenas, uma criança é responsabilidade de toda a tribo, há quem ainda hoje dê a luz numa casa de banho de café e depois deite no lixo o recém nascido. Porque nós, temos um cérebro grande e ideias engenhosas. O sentido de comunidade dos golfinhos leva-os a se protegerem, de criarem formas de até salvarem à nós, os humanos superiores... o nosso sentido de comunidade é aquele que exige algo por direito, mas não oferece nada por dever. O dever fica nas mãos do Estado, essa madrasta que tem que dar para tudo, enquanto nós exigimos coisas que não sabemos oferecer. Tempo, voluntariado, engajamento social, preocupação e acção ecológica fica no começo das listas de resoluções do começo de cada ano novo.

É sim, uma sorte estupenda ainda andarmos por aqui, com a mesma cabecinha leve de que há de ter tempo para "essas coisas" mais tarde. 
Hoje, andamos para aqui, uma nação tocada a força de anti-depressivos, de Programas de Ocupação Temporária (falseando as estatísticas e fazendo crer que o desemprego baixou, quando na verdade aumentou a precaridade), de novelas a estrear e de muitas minis e a selecção...
Dizem as vozes pensantes, que esta coisa da União Europeia já deu o que tinha a dar, anda tudo perto de dar o berro, e que voltaremos ao saudoso Escudo. 

Muitos conquistadores quiseram formar uma única nação, com uma única moeda e deu em merda. O Império Romano foi o melhor exemplo de aglutinação forçada de nações para a formação de uma única forte. Esquecidos foram os problemas resultantes de aliarem pela força, que o poder corrompe e que não se mudam culturas apenas porque se diz que é o melhor  a fazer. Agora, não usam as Legiões, nem a força do pilum ou das tácticas de guerra. Hoje usa-se a ganância, o dinheiro e as posições de poder ou fragilidade para conseguir aliar povos com um único fito: Uma União Forte e Coesa. 

Se os erros do passado não serviram de lição, se continuamos a jogar para depois aquilo que é urgente fazer hoje, se não vemos a necessidade de mudar a mentalidade...então é mesmo uma sorte danada ainda andarmos por cá. E a diferença entre os macacos, os símios e nós os sapiens-sapiens...é o fatinho catita que usamos e o facto de eles não nos usarem como mascostes...

Apareçam

Rakel

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