Até Que O Covid-19 Nos Separe



Já faz um bocado de tempo que não tenho escrito nada sobre relações; das que se fazem esboçadas em romances, em conjugações de cama e mesa e aquela perfeição tão desejada e nunca alcançada.
Talvez tenha batido um bocado no assunto lá pelo começo do blog; isto por que depois do divórcio fez-me repensar uma data de coisas.

A vida em comum não é fácil. Por muito que as comédias românticas apregoem, por mais que os "doramas" japoneses e coreanos nos mostrem que os príncipes e princesas acabam sempre felizes para sempre... o sempre não é garantido. A não ser que penhorem a felicidade.

Depois do meu tempo de reflexão pós divórcio, cheguei à conclusão que, para uma relação dar certo é preciso haver espaço. Espaço entre as pessoas. Espaço pessoal e tempo para si. De preferência, cada um na sua casa. Como é óbvio, essa minha visão de relação em espaço não era bem recebida. Colocava todos os cânones em questão e toda aquela visão romantizada das relações. O dormir de conchinha (sobrevalorizado), o de ter e criar filhos, de estarem sempre juntos a dividir o melhor e o pior..

E percebi também que a visão que tinha desse assunto, não era muito bem recebido. Por que colocava em causa uma base de raiz profunda na nossa sociedade? Por que cada um trabalha  , mesmo sacrificando muita coisa, pelo conceito que desenhou de felicidade? não sei. Só sei que decidi deixar esse assunto de lado uns tempos e retomando agora em análise.

E sempre rebati a questão, dizendo que. se tivessem que viver 24 horas por dia com o seu par, fatalmente acabariam por matarem-se um ao outro. Como a vida destina-nos a sair de casa para trabalhar, estudar, fazer compras e socializar, a coisa até parece que dá certo. No entanto, não foi só uma vez que ouvi algumas mulheres que trabalhavam com os maridos, dizerem que já estavam faaaaartas deles; que só o respirar perto já incomodava. Acordam com ele, saem de casa com ele, trabalham com ele, vão às compras com ele e voltam para casa com eles. E só lhes apetece mandar com a frigideira com os ovos mexidos nas trombas deles. É vero.

Foi preciso o Covid-19 colocar em causa todo o sistema em que estávamos comodamente a viver para fazer luz sobre algumas questões sociais importantes. Ou como algumas relações aparentemente sólidas estavam seguras com cuspe e fita adesiva de papel.

O cantor e actor Justin Timberlake desabafou que ficar o tempo todo com os filhos (tadito) é desumano. tendo em conta que o moço não vive num T2 na Trafaria e que tem espaço de sobra para as crianças brincarem, o que ressalta nisso, é a pouca paciência e vontade de perceber...que eles crescem depressa e é importante seguir todas as etapas do crescimento. Mas enfim, não é o único. 

No Japão, com um povo pouco acostumado a expressar espontaneamente as suas emoções, chegou a um ponto em que, estão a ser disponibilizados locais para haver espaço entre casais, o que vem reforçar a evidencia de que prender duas pessoas 24/7 no mesmo espaço...não dá certo. E tendo em conta que os apartamentos nipónicos são um ovo de pequenos, não me espanta nada que não falta atritos.

E seja na China, Itália, França, ou qualquer outro lugar onde o confinamento esteja a ser seguido à risca, o número de divórcios e violência doméstica subiu em flecha. Ficam aí assinalados no nome de cada país os links para a informação necessária para quem quiser ler, é só carregar no azul. É facto que depois de um determinado tempo confinados ao mesmo espaço 24 horas por dia dá problemas.

São as migalhas que o estupor deixa em cima da mesa da cozinha e não recolhe; é a mania dela queixar-se que ela faz tudo e ele não faz nada; é a maneira como mastiga; é a maneira como ela ri; é o espaço que ele ou ela ocupa no sofá; é a palavra torta e sem jeito quando a gente só disse "bom dia!".

E depois, há aquela mania de ir buscar coisas que aconteceram há trocentos anos atrás do relacionamento, e que por falta de assunto melhor, é feita uma sessão espírita e trazidas de novo à vida actual. E se há coisa que o ser humano gosta de fazer...são as guerrinhas. Lembram do filme "Guerra das Rosas" com Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito? É mais ou menos por aí...e talvez a vida acabe por imitar a ficção.

No fim das coisas, precisamos acreditar que todo e qualquer relacionamento não sofra qualquer beliscadura; que aquilo que imaginamos viver até a nossa velhice, é uma vida repleta de felicidade com as pessoas que amamos. Assim, directo e sem espinhas. No entanto, a vida já de si não é fácil, quanto mais conjugando duas pessoas com cabeças diferentes, desejos diferentes e bagagens diferentes. Mas seja o seu príncipe encanyado ou Shrek da sua vida, viver a dois muitas vezes é, até arrisco a dizer na maior parte das vezes, a necessidade de espaço próprio.
Que chegue-se à frente a mãe que não tem um filho ao colo e outro no chão da casa de banho enquanto está sentada no trono a fazer o nº2, e que depois, quando o pai dessas crianças chega à casa no final do dia e pede que ele olhe um bocado por eles? E o gajo sai-se com "estou estafado e tu estiveste o dia todo em casa" e ela... fica ali entre a vontade de atirar com a concha da sopa na cabeça dele ou a murmurar baixinho o quão egoísta e idiota esse filho de uma égua é...
Ela que só tem a Pepa Pig e a Patrulha Pata como programas a passar constantemente na TV, que o mundo gira à volta  dos metros quadrados daquela casa, tem quem aceitar isso como algo incontornável.

Espaço, tempo próprio. Individualidade.

É por isso que me faz uma certa confusão, os perfis onde o nome do dono da página é Juvenal da Mula, e a foto tá lá dele e Marisolda Capenga juntinhos, cabeça com cabeça, a actual namorida. Mas o Juvenal é uma pessoa ou uma dupla sertaneja? São gémeos Xifópagos? Essa perda de individualidade dá-me muito o que pensar. Afirmação pessoal do Juvenal? Insegurança ou imposição da Marisolda? Que raio de base de confiança, honestidade e personalidade faz parte desse casal, não é?

Enfim, os actuais movimentos sociais causados pelo Covid-19 e pela nossa infinita capacidade de postergar a realidade, cobrindo tudo com a rotina "normal", evitando ver e perceber os pontos de viragem que nos alertam e são o barómetro da nossa felicidade, estão aí à mostra.
É complicado, é real, mas não impossível. Requer, sem dúvida, dos parâmetros daquilo que somos ou não capazes de fazer e aceitar num compromisso.

E embora eu não seja especialista em nada, apenas sendo apenas uma observadora das acções, das tomadas de atitudes, das relações feitas do por que sim, é assim...podem me chamar de cínica, sarcástica, enfim,do que quiserem. Mas aquilo que eu afirmei há 10 anos atrás, está aí, acontecendo um bocadinho em cada ponto do mundo, onde foram obrigados a ter que estar constantemente na companhia um do outro.

Fica a dica, desta velhinha música com letra de Chico Buarque, "O casamento dos pequenos burgueses" que faz parte da Ópera do Malandro...uma letra lúcida de muitos relacionamentos aparentemente... perfeitos.


Rakel.



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