Ode Ao Convívio Redescoberto



Falam no pequeno ecrã da importância de tirar as pessoas "ligadas a maquina", das que se isolam dos sorrisos, das conversas absurdas que não levam à lado nenhum, das piadas que só quem conta conhece o significado; das conversas codificadas em que se fala de todos sem nomear directamente ninguém.

Realmente a amizade precisa de pouco, precisa de atenção, de espaço e da aproximação; do convívio olhos nos olhos, da resposta à pergunta e na empatia de dois mundos diferentes. Aceita-se as diferenças, tolerar é um ok por obrigação, portanto riscado fora da amizade; discute-se, mas fica sempre tudo bem no final. Não gostamos e dizemos, e mesmo assim, as coisas continuam como sempre foram: amigos pra vida e pra morte.

Da tela da TV passam rapidamente para a pequenina tela do tablet, do telemóvel, repassando de post em post os likes desta campanha genial que visa reavivar os laços de amizade que vão se perdendo entre likes e partilhas virtuais...

...e nada disto é inocente.

A queda do consumo de cerveja em Portugal está contada assim por alto nos 20 milhões de litros; minha gente... 20 milhões de litros é muita cerveja, uma mar dela por surfar. De uns tempos para cá, as pessoas deixaram de sair de casa para uma cervejinha na esplanada, um happy hour de fim de expediente e dos costumes de bola no café regado a minis. Deitam as culpas ao novo estilo de vida do likes e partilhas, embora tenha que confessar, o grande culpado será talvez o número de desempregados aliado ao factor salário baixo mais o preço por vezes abusivo de um imperial numa esplanada.

Muitos preferem ir ao supermercado, comprar um pack de latas de uma cerveja com um nome estrambótico vindo da Alemanha ou Polónia, e ficarem em casa  a ver os jogos na box comprada em alguma promoção de adesão. Restaurantes com o IVA a 23% tentando balancear preço com qualidade já não são o que eram antes. O custo de vida tem matado o convívio, por outro lado, empurram-nos goela abaixo as promoções de tecnologia para servir de chucha social e a falta de dinheiro.

Bom, mas digamos que a gente consiga arrancar de casa alguma pessoa apegada ao telemóvel, aos likes e partilhas e que vamos tomar uma cerveja ou gin, caramba, vamos ao gin ou até uma vodka gelada!  Essa pessoa muitas vezes não sabe falar de outra coisa que não seja o post que viu no LivrodaTromba ou do Piupiu.... e temos imensa pena...

Mas não desista, ainda existem alguns resistentes que como nós estão pelos cabelos de gente com visão de túnel e com o indicador a passar páginas virtuais de post em post.

Está frio? vamos ao chá e bolachinhas ou então afogar-nos em trilhões de calorias numa fatia de Red Velevet ou Bolo Floresta Negra na Maria. Sair mesmo que esteja um frio de rachar, que chova a potes, e sim mesmo que pareça um sem tecto pela escolha inverossímil de roupa. Tanto faz a moda ou se o verniz está um bocadinho mal tratado e o cabelo está num daqueles dias que não há nada a fazer.

Vamos sair e fazer safaris para chegar à uma praia nos quintos dos infernos, numa descida digna da National Geographic; vamos para uma inauguração de um novo bar perto do Castelo de Almorol, embora a dita inauguração aconteça apenas no dia seguinte, esteja escuro feito bréu e rir fosse a única coisa a ser servida. Faça uma caminhada de 15 kms e chegue em casa pelas 11 da noite, estafada como o raio, mas depois de muita risada e um par de imperiais fresquinhas. Fique sem perceber como é que raios, depois de uns tantos copos de sangria de champanhe e caipirinhas sopra-se no balão e dá zero. Tire-se de casa e veja o sol nascer e a comer sandes para matar a fome depois de longa noite de trabalho, bandas, ouvidos a zunir e tantas correrias. Leia livros, fale de músicas que ouviu e que traduziram significados interiores, momentos que fizeram tanto sentido na altura.

Não deseje para si os afectos feitos apenas por mensagens, brigas em caps lock ou um terminar de namoro feito por hang out. Foda-se, olhem nos olhos e digam que já acabou, aguentem o gritos, os dedos acusadores, a voz tremida e ponta de raiva e desilusão. Até o gelo da voz monocórdica e baixa desmembrando cada pedacinho das razões do fim. O sms do "já fostes" cria esta geração de covardolas que pululam por aí... Merda, até divórcio já se fazer online...

Disseram-me que não existe amizade entre homens e mulheres, mas catano, eu tenho amigos na mesma, sem segundas ou terceiras intenções, jogando por terra essa máxima urbana de inexistência de amizade entre sexos diferentes. E vamos às cevejolas pah... andas sumido ou o quê?

Vá para esplanada apanhar os primeiros e deliciosos raios de sol de uma Primavera bipolar, beber uma cerveja, falar desta idiotice tamanha que vem sendo os efeitos colaterais do chá verde, das encharpes com borboletas coloridas e dos sapatinhos a la  Dorothy do Mago de Oz; de ter estranhos sentimentos depois de uma maratona de filmes coreanos e japoneses, daqueles de arrancar lágrimas das pedras e ficar no final num profundo ohhhhhhhhh.... mas que pena....
Quase 90% das vezes acabam mal, verdadeiros dramas que vão buscar de tudo, do Alzheimer precoce à Leucemia. Rir de tudo isso embora continue não entendendo por que cargas d'água anda numa fase tão peculiar.

Agarre na máquina fotográfica e faça uma safari dentro da sua cidade, noutra que vai visitar a trabalho ou por lazer. Lazer é uma necessidade e um exercício mental, dos que envolvem acções maiores que um clike e um polegar para cima a dizer gosto. Chame os amigos quando a trovoada emocional rebenta com força; são eles os mais indicados para ouvirem e terem uma opinião válida sobre o assunto e não uns 1000 e tantos ilustres desconhecidos que apenas mandam sorrisos ou bonequinhos tristes. Arranquem fora os filtros, chiça, façam por arrancar os filtros; dizer que está tudo bem quando não está é errado, é dar perfeição aonde não existe e não acontece. Fale sem filtros, preto no branco e vão descobrir que nem toda gente os aceita assim tão bem, nem tem resposta ou interesse. Passem pela peneira os que sabem entender dos que apenas parecem perceber.

Não façam as coisas apenas porque o consumo de cerveja caiu, ou porque toda gente compra marca branca e se desunha agora em fazer manguito às marcas. Tenham postura, espinha direita e escolhas próprias, não se deixem conduzir como um bando de ovelhas.

Combinem de cada um levar um petisco e quem ofereça a casa, conversem, falem um monte de besteiras e riam muito... aparecer apenas nos funerais deste ou aquele que já não viam e sabiam há que tempos não faz de nós melhores pessoas.

Mas mesmo assim, muitas vezes nos vemos numa mesa em que um ou dois não despegam os olhos do telemóvel ou tablet, forçando-nos a acompanhar alguma desgarrada virtual entre bate-boca de lavar roupa de ex qualquer coisa. E quando o número de pessoas coladas ao ecrã virtual for maior que o número de pessoas que estão mesmo lá para conviver... agarre em si e vá dar uma volta. Fuja dos zumbis.

Uma coisa é certa, tanta tecnologia vem esgotando mentalmente as pessoas e limitando as preferências, jogando cada um dos sufocados para as velhas formas de diversão. O gosto pelo disco de vinil, o LP ou single, estão de volta e os adeptos até são as camadas mais novas. Em volta desta forma antiga de ouvir música havia todo um cerimonial e um cuidado que era era digital matou. e estão de volta a editar em vinil trabalhos musicais antigos e novos. Pasmem, as vendas mundiais, os mais cobiçados em todos os tipos de suportes (CD ou Vinil) não são as reboletes ou as imitações de madonnas que estão na maior procura. São os cotas dos Led Zeppelin, Doors e afins. Cartas, eu ainda tenho esperança que as cartas voltem a fazer parte do meu quotidiano, de receber além das contas uma carta de amigos, postais de quem viaja pelo mundo e que perdem cinco ou dez minutos para dizer que a cidade é fantástica e que o tempo, apesar de tudo, não tem estragado o passeio. Com a letra em garranchos ou estilizada em linhas de sinal de vida.

Cansa-me as meninges as fotos do prato que estão a comer, as unhas acabadas de pintar, o boca bico de pato em foto em frente do espelho do elevador ou da casa de banho. E o cansaço tem sido tamanho, tão sufocante, que já só consigo andar pela net praí uma hora por dia se tanto. E há uma mundo inteiro para descobrir, facetas estranhas minhas a virem ao de cima e uma consciência provada que amizades oferecidas e aceites a granel são apenas um número simbólico e nada verdadeiro.

Mas não, nada disto desta propaganda sobre a amizade das marcas de cerveja são um assunto inocente, precisam vender cá dentro além de exportar, que o leitor consuma mais umas litradas. E cerveja sem companhia é das coisas mais tristes que há. Podemos ter a companhia sem cerveja, mas a cerveja vive mal  sem companhia. O copo de vinho não se sente mal na companhia de um livro, de um vinil girando numa noite chuvosa. Até se divide bem à dois, em conversa amena, sorrisos e olhares cúmplices. Muitos na vinhaça já dá em rebaldaria, jogo de berlindes na cozinha e dores de cabeça infernais. Vodka e Gin pedem tanto a solidão como a conversa que leva horas e que toda gente tem razão, mesmo considerando as devidas diferenças...

...mas a cerveja não, ela precisa de companhia.


Apareçam

Rakel.

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